Pa Kua e o caminho do ensino

Sérgio M. de Souza
4 min readAug 8, 2022

A arte de ensinar faz parte da história humana, tendo sido primeiro centrada na família, ou grupo de convívio, com o objetivo de prepará-los para sobrevivência, desenvolvendo-se na busca da formação do individuo para que esse exerça a sua cidadania e possa desenvolver uma formação profissional. O papel do mestre ou do educador foi sempre visto como essencial dentro de uma sociedade próspera, não apenas como um detentor do conhecimento, mas como aquele que conduz seus alunos da melhor forma possível no processo de aprendizagem.

A palavra ‘educar’ vem do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), e significa literalmente ‘conduzir para fora’. Podendo representar tanto o ato de conduzir o aluno para o mundo, quanto educador ao externalizar o seu conhecimento.(https://www.dicionarioetimologico.com.br/educar/)

Meu mestre costumava dizer que ensinar era o ato de transformar um copo numa jarra. Porque quando aprendemos estamos enchendo o nosso copo de conhecimento, porém esse copo tem um limite, e nós conseguimos esvaziá-lo de várias formas: uma das mais nobres é dando aulas e ajudando a preencher outros copos.

No I Ching o ensino é representado pelo hexagrama 04 composto pelo trigrama Água abaixo do trigrama Montanha. Aqui se utiliza a analogia com a água nascendo e fluindo da montanha, contornando os obstáculos que aparecem. A água que nasce limpa vai acumulando sedimentos e se transformando a medida que vai cumprindo o seu trajeto. A montanha representa o instrutor que deve permanecer firme, ajudando e guiando o discípulo no desabrochar do seu conhecimento.

Lao zi no capitulo 48 do livro Dao de Jing disse:

"Na busca pelo conhecimento,
todo o dia algo é acrescentado.
Na prática do Tao,
todo dia algo é descartado."

Nessa passagem Lao Zi critica o acúmulo de conhecimento por si só, o que Paulo Freire chamava de “educação bancária”, onde o conhecimento é apenas “depositado”, assim como o dinheiro em um banco. Quando Lao Zi diz que devemos decrescer a cada dia, a ideia está conectada justamente ao esvaziamento do copo, ao processo de compreensão e absorção do conhecimento, além do próprio processo de ensino.

O aprendizado através do ensino

Em Pa Kua aprendemos que a capacidade de se adaptar é algo fundamental para o desenvolvimento do ser humano, seja num combate ou em qualquer área da vida. Uma das formas de vivenciar e desenvolver essa habilidade é através do ensino.

Quando ensinamos, frequentemente nos deparamos com pessoas e características completamente diferente das nossas. Dessa forma, é essencial que o instrutor saiba se moldar ao aluno para que o ensinamento ocorra. Gostamos de dizer que ensinar é a expansão do nosso próprio aprendizado, pois desenvolvemos características que muitas vezes estavam adormecidas em nós.

Além da crença no ensinamento um discipulo é aquele que a cada momento tem vontade para efetuar a prática do mesmo, respeitando-o e difundindo-o com a maior dedicação, transformando-se de acordo com a capacidade de seu interlocutor, em acompanhamente, esclarecedor ou guia dele. (Mestre Magliacano)

É importante sempre encarar o ensino como uma via de mão dupla, porque se aprender por aprender é apenas um “acúmulo” de conhecimento, ensinar sem compreender o conhecimento, os limites dos alunos e o que estamos aprendendo naquele momento, faz você se tornar um mero reprodutor do conhecimento.

Ensino através do exemplo

Confúcio dizia que para se tornar um bom professor a pessoa deveria primeiro cultivar em si própria todas as características desejadas para depois conseguir passá-las adiante.

Aprender na perspectiva confucionista consiste basicamente no desenvolvimento do autocultivo moral. (Tan, C. 2017)

Moralidade aqui se refere a um processo gradual de construção do caráter, relativos aos valores compartilháveis de sua própria sociedade para que o ensino e as atitudes caminhem de forma harmônica, como colocado pelo Mestre Magliacano no texto a seguir:

Por meio do ENSINAMENTO podemos alcançar a compreensão, e é natural tratar que os outros alcancem, obedecendo ao propósito de nossas atitudes harmônicas em participação plena com os que recebem. (Mestre Magliacano)

O ensino na Liga internacional de Pa Kua

Na Liga Internacional de Pa Kua o aluno pode começar a dar aulas, sob supervisão, à partir da faixa cinza (com exceção de Arqueria). Isso significa que ele poderá ensinar praticantes iniciantes, contando com o acompanhamento do seu próprio mestre na preparação das aulas e progresso dos alunos. Por conta disso o ensino é visto na nossa escola como um meio para o aprendizado, e não o fim.

Como parte da tradição de Pa Kua, buscamos manter vivo o modelo de ensino vivencial e oral, através do contato direto e constante do aluno com o seu mestre, onde se conquista um aprendizado claro e conciso, fazendo com que o pupilo não se sinta sozinho na sua jornada como praticante.

Referências

MCDANIEL, Thomas R. (1991) “The Tao of Teaching.” American Secondary Education 20, no. 2: 7–9.

TAN, C. (2017). A Confucian perspective of self-cultivation in learning: Its implications for self-directed learning. Journal of Adult & Continuing Education.

MAGLIACANO, Rogélio I. M. (2016) "O caminho". Edição Liga Internacional de Pa Kua.

LAO ZI. (2017) Dao De Jing — O livro do Tao. Tradução Chiu Yi Chih. São Paulo: Mantra.

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Sérgio M. de Souza

Praticante e professor na Liga internacional de Pa Kua